Quando me perguntam qual é a minha "abordagem", costumo responder com duas palavras antes das siglas técnicas: tubarão e abelhinha. Não é fofura nem branding. É a forma mais honesta que encontrei de explicar para crianças, famílias, escolas — e também para mim mesma — o tipo de trabalho que faço, e o tipo de mundo em que acredito que a infância precisa acontecer.
Por que dois animais, e não um diagnóstico
A psicologia infantil que aprendi na universidade fala em DSM, critérios, escalas, comportamentos-alvo. Tudo isso é meu chão profissional — uso TCC, ABA, avaliação neuropsicológica, instrumentos validados. Mas nenhuma criança que chega ao meu consultório quer conversar comigo sobre "comportamento-alvo". Ela quer brincar. Ela quer entender por que ninguém em casa parece feliz quando ela explode. Quer saber se é um problema ela. Quer saber se ainda dá pra arrumar.
Eu precisava de uma linguagem que cruzasse essa ponte. Que fosse fiel à ciência sem soar como um manual. Que cabesse na cabeça de uma criança de cinco anos e ainda assim fizesse sentido para um adolescente de quinze, e para a mãe esgotada que está sentada ao lado dele. Foi aí que os animais chegaram.
Existem dois jeitos muito diferentes de habitar o mundo, e a natureza nos oferece exemplos claros dos dois. O tubarão é predador: vive em conflito com o ecossistema, está sempre em tensão, lê o outro como presa, ameaça ou competição. A abelhinha harmoniza com o ambiente, poliniza, produz mel, trabalha em colmeia e só ataca para se defender. Os dois sobrevivem. Os dois existem por bons motivos evolutivos. Mas o custo emocional de viver como um ou como outro é radicalmente diferente.
Quando eu mostro essas duas figuras a uma criança, ela entende em trinta segundos algo que levaria sessões para chegar com vocabulário técnico. E entende sem se sentir doente.
O tubarão é um sintoma, não uma identidade
Esse é, talvez, o ponto mais importante do meu trabalho — e o que mais me esforço para ensinar a pais, professores e cuidadores antes que eles repitam em casa o que ouviram no consultório.
Nenhuma criança é um tubarão. Existe um jeito tubarão de reagir. Um modo de funcionamento que aparece quando algo no ecossistema da criança não está bem — pode ser sobrecarga sensorial, vínculo inseguro, exigência além do que aquela fase comporta, ambiente familiar tensionado, escola que não acolhe a diferença, sono ruim, fome, luto, medo. O tubarão é um sinal. Não é defeito de fabricação.
Quando uma criança ataca, grita, morde, foge, se isola ou domina os colegas com agressividade, o reflexo do adulto é olhar para ela e perguntar "o que há de errado com você?". A pergunta clínica que eu prefiro é outra: o que está acontecendo no entorno dessa criança para que esse jeito tubarão pareça, no corpo dela, o único caminho possível?
É uma virada de chave decisiva. Sai a busca por culpa, entra a leitura de contexto. Sai a tentativa de consertar a criança, entra o cuidado com o ecossistema inteiro. E aí, sim, dá pra trabalhar — porque a criança para de ser o problema e volta a ser o que ela é: alguém pequeno, em desenvolvimento, fazendo o melhor que consegue com os recursos que tem hoje.
A abelhinha e a colmeia
Quando eu apresento a abelhinha, tem sempre um detalhe que faço questão de reforçar — e que costuma surpreender pais que vêm com a ideia de que cooperar é "ser bonzinho".
A abelhinha se defende. Ela ataca quando precisa proteger a colmeia, quando algo invade seu espaço, quando há ameaça real. A defesa é legítima, não predatória. Isso muda tudo na conversa com crianças que sofrem bullying, com adolescentes que estão sendo violentados em alguma relação, com meninas que cresceram acreditando que ser "boazinha" é nunca dizer não. Cooperar não é se submeter. Harmonizar com o ambiente não é desaparecer dentro dele.
A abelhinha também não vive sozinha. Esse é o segundo ponto que me importa muito. Ela existe dentro de uma colmeia, e a colmeia existe dentro de um jardim, e o jardim existe sob um clima. O bem-estar da abelhinha não é resultado da força de vontade dela. É resultado de pertencimento. Uma abelhinha sozinha morre em pouco tempo, não importa o quanto se esforce.
Crianças funcionam mais ou menos do mesmo jeito. Você pode ter a criança mais saudável do mundo, com a genética mais protegida, com o temperamento mais regulado — se você arrancar dela o vínculo seguro, a previsibilidade, a rede em volta, ela adoece. Inversamente: você pode ter uma criança com TEA, com TDAH, com história difícil, com perfil sensorial complexo — e, se o ecossistema em volta estiver afinado, ela floresce.
O jardim em volta da abelhinha
Aqui mora a parte que costuma incomodar quem chega esperando "uma terapia pra criança". O meu trabalho, em essência, é cuidado de ecossistema. Eu atendo a criança, sim, individualmente, com hora marcada, com brinquedo, com escuta, com técnica. Mas eu nunca atendo só a criança. Atendo, em camadas, o sistema inteiro do qual ela faz parte.
Tem quatro camadas que organizo mentalmente em toda família que chega:
A flor — a criança e seu desenvolvimento
É a camada mais óbvia e a única que costuma estar na expectativa inicial. Quem é essa criança? Em que fase do desenvolvimento ela está? Como funciona o sistema nervoso dela? Tem neurodivergência? Como ela aprende, se acalma, se conecta, se expressa, se defende? Aqui entra a TCC, a ABA, a ludoterapia, a avaliação neuropsicológica quando indicada. É o trabalho clínico no sentido estrito.
A colmeia — a família
Pais, mães, padrastos, madrastas, irmãos, avós, cuidadores. Toda criança chega ao consultório dentro de uma colmeia, e nenhuma terapia infantil funciona se a colmeia não entra junto. Isso não significa colocar pais no banco dos réus — pelo contrário. Significa entender que pais também estão exaustos, também têm histórias, também aprenderam o jeito tubarão em algum momento da vida deles e estão repetindo o que sabem.
A parte que eu mais defendo dessa camada é a parentalidade positiva — não como técnica de modificar comportamento da criança, mas como mudança de postura do adulto. Conexão antes de correção. Não dá pra ensinar uma criança a ser abelhinha gritando como um tubarão.
O jardim — escola, comunidade, rede
A criança passa mais horas acordada na escola do que em qualquer outro lugar fora de casa. Se o jardim em volta dela for inóspito, nenhuma terapia compensa. Por isso, parte do meu trabalho — quando a família autoriza e a escola está aberta — envolve conversar com professores, coordenadores pedagógicos, orientadores. Construir junto adaptações razoáveis, traduzir laudo em prática de sala de aula, alinhar linguagem entre casa e escola.
Também faz parte do jardim a rede de outros profissionais: neuropediatra, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, psicomotricista, psiquiatra infantil quando necessário. Nenhuma criança neurodivergente é cuidada por um profissional só. Eu trabalho em rede, e considero isso parte do método, não cortesia.
O clima — o mundo
Tem coisas que afetam a criança e a família, e que não estão sob controle de nenhum profissional do consultório. Excesso de telas, exigência de desempenho desde a creche, ritmo acelerado, escassez de tempo de brincar livre, comparação constante via redes sociais, pressão estética nas meninas a partir dos sete anos, cultura do "criança ocupada". Esse clima atravessa cada sessão. Ignorar isso seria desonesto.
Eu não consigo mudar o clima sozinha. Mas posso nomear o clima dentro da sessão. Posso ajudar pais a perceberem que o cansaço deles não é falha pessoal, é resposta ao ambiente. Posso ajudar uma adolescente a entender que a ansiedade dela tem componentes que vêm do mundo, não dela. Nomear o clima é parte do cuidado.
Quando uma parte desse ecossistema adoece, o sistema inteiro sente. A flor murcha, a colmeia se agita, o jardim seca, o clima fica pesado. Por isso eu insisto: meu trabalho não é consertar a criança. É cuidar das condições que permitem que a criança seja criança.
Como isso vira sessão
Quem nunca esteve em terapia infantil costuma imaginar uma criança deitada num divã falando sobre os pais. Não é nada disso. Sessão de criança é, no essencial, brincadeira observada com olhos clínicos. É o brincar como linguagem.
Eu uso jogos, desenho, fantoche, cenas inventadas, histórias. Em algum momento da terapia, a depender da idade e do perfil da criança, o tubarão e a abelhinha entram no jogo — às vezes literalmente, com bichos de pelúcia ou desenhos; às vezes como apelido para o que está acontecendo na semana. "Hoje eu cheguei em casa modo tubarão." "Minha irmã tava mil por hora, eu fui abelhinha e fui fazer mel longe dela." Quando uma criança consegue nomear o próprio estado, ela já está regulando.
O fantoche é o recurso que mais me ajuda a introduzir a metáfora. Quando o tubarão e a abelhinha viram personagens nas minhas mãos, eles deixam de ser conceito e passam a ser alguém com quem se conversa. A criança fala com o fantoche o que não consegue falar comigo — e, sem perceber, fala consigo mesma. A partir daí, encaixo outros materiais conforme o que cada criança precisa: desenho, jogos, histórias, cenas montadas, bichinhos de pelúcia que entram e saem da colmeia. Não existe um único caminho; existe a leitura do que aquela criança, naquela semana, está pronta para brincar.
A sessão com adolescentes é diferente. Aí entra mais conversa, às vezes desenho ou escrita, e a metáfora aparece em outra chave: discutir relações, escolhas, namoros, conflitos de turma, planos de vida. O adolescente abelhinha não é o adolescente passivo — é o que aprende a se posicionar sem destruir o vínculo. O adolescente tubarão não é o "problemático" — é o que está pedindo socorro com a única linguagem que aprendeu até aqui.
Com pais, a sessão é orientação parental: a colmeia em manutenção. Trabalhamos rotina, limites, comunicação, autocuidado dos cuidadores, leitura das próprias reações. Em alguns casos, indico que o adulto procure terapia individual para si mesmo — porque tem coisa do adulto que não cabe trabalhar dentro do espaço da criança.
Conexão antes de correção
Essa frase aparece na minha biografia, aparece nas minhas redes, e aparece no consultório quase toda semana. Eu repito porque é o princípio que organiza tudo o que está escrito acima.
Vínculo seguro antes de comportamento esperado. Escuta antes de regra. Acolhimento antes de manejo. Não porque limite é dispensável — limite é essencial, e crianças sem limite ficam ansiosas. Mas porque limite só funciona quando vem de alguém em quem a criança confia. Limite imposto por adulto desconectado vira coerção; limite sustentado por adulto presente vira aprendizado.
Isso muda o tom da intervenção. Antes de pedir à criança para "parar de fazer birra", eu pergunto à família como anda o sono dela, a rotina, o tempo de tela, a relação com a irmã, a separação dos pais que aconteceu há seis meses, a mudança de escola que ela não escolheu. Quase sempre a birra é a ponta de algo. Atacar a ponta sem cuidar do que está embaixo só ensina a criança a esconder.
Conexão antes de correção também vale para mim, profissional. Antes de aplicar protocolo, eu preciso ter conhecido aquela criança. Antes de devolver laudo, eu preciso ter olhado nos olhos daquela família. Sem conexão, eu seria só uma técnica aplicando técnica em alguém. Com conexão, eu sou psicóloga.
O que a Jessica faz, em uma frase
Se você leu até aqui e quer levar uma frase só, é essa:
Eu não trato crianças difíceis. Eu cuido de ecossistemas que ainda não aprenderam a sustentar a infância que recebem. — Jessica Costa
Algumas crianças chegam ao meu consultório com diagnóstico fechado. Outras chegam só com o cansaço da mãe. Algumas vão precisar de avaliação neuropsicológica, outras vão precisar de seis sessões de orientação parental. Cada caso desenha um cuidado diferente. O que não muda nunca é a leitura: a criança não está estragada, e a família não fracassou. Existe um jeito tubarão circulando no sistema, e existe um jeito abelhinha esperando para aparecer. Meu trabalho é ajudar a colmeia inteira a achar esse caminho — com TCC, com ABA, com brincadeira, com técnica, com afeto, e com a coragem de não simplificar o que é vivo.
Descomplicar a infância, pra mim, não é torná-la fácil. É devolver a ela o direito de ser complexa, sem precisar virar diagnóstico para ser cuidada.
Psicóloga infantojuvenil especializada em neurodivergências. CRP 05/79764
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