Seu filho só aceita os mesmos alimentos? A seletividade alimentar é muito comum em crianças com TEA e TDAH. Entenda as causas sensoriais e conheça estratégias gentis para ampliar o repertório alimentar.
O que é seletividade alimentar?
A seletividade alimentar vai além de "ser enjoado para comer". Trata-se de uma restrição significativa no repertório alimentar, onde a criança aceita poucos alimentos — muitas vezes sempre os mesmos, preparados da mesma forma, na mesma marca e até no mesmo prato.
Em crianças neurodivergentes, essa seletividade é frequentemente ligada ao processamento sensorial diferenciado. Não é frescura, não é birra e não é culpa dos pais.
Por que acontece?
Questões sensoriais
A principal causa em crianças com TEA está na hipersensibilidade sensorial. O cérebro processa texturas, sabores, cheiros, temperaturas e até a aparência dos alimentos de forma muito mais intensa. Aquilo que para nós é "normal", para a criança pode ser extremamente desconfortável ou até aversivo.
- Textura: Alimentos muito macios, com grumos ou fibras podem causar desconforto ou ânsia
- Cheiro: Odores que consideramos neutros podem ser insuportáveis
- Sabor: Sensibilidade aumentada ao amargo, ácido ou a sabores misturados
- Temperatura: Preferência por alimentos em temperatura específica
- Aparência: Alimentos com cores, formatos ou apresentação diferentes do habitual são rejeitados
Necessidade de previsibilidade
Para crianças que precisam de rotina e previsibilidade, a alimentação é mais uma área onde o "conhecido" traz segurança. O alimento familiar é seguro; o desconhecido é ameaçador.
Questões motoras orais
Algumas crianças têm dificuldades na coordenação da mastigação e deglutição, o que torna certos alimentos mais difíceis de comer. Isso pode levar à preferência por alimentos mais fáceis de processar.
O que NÃO fazer
- Não force: Forçar a criança a comer gera trauma alimentar e piora a seletividade
- Não esconda alimentos: "Esconder" vegetais na comida pode gerar desconfiança e aumentar a recusa
- Não use comida como castigo ou recompensa: "Só ganha sobremesa se comer tudo" cria uma relação ruim com a alimentação
- Não compare: "Olha como o primo come tudo" não ajuda em nada
- Não transforme a refeição em guerra: O estresse durante as refeições piora a seletividade
Estratégias que funcionam
1. Exposição gradual e sem pressão
O alimento novo precisa ser apresentado muitas vezes antes de ser aceito. A sequência natural é: ver → tocar → cheirar → levar à boca → mastigar → engolir. Cada etapa é uma conquista que deve ser celebrada.
2. Envolva a criança no processo
Leve ao supermercado, deixe escolher frutas pela cor, convide para ajudar na cozinha. Quando a criança participa do preparo, a relação com o alimento muda.
3. Respeite os alimentos seguros
Sempre ofereça pelo menos um alimento que a criança aceita nas refeições. Isso garante que ela coma algo e reduz a ansiedade à mesa.
4. Ambiente tranquilo nas refeições
Sem TV, sem pressa, sem cobranças. A refeição deve ser um momento agradável. Se possível, faça refeições em família — a criança aprende observando.
5. Trabalho multidisciplinar
O acompanhamento de um terapeuta ocupacional especializado em integração sensorial, junto com nutricionista e psicólogo, pode fazer enorme diferença na ampliação do repertório alimentar.
Quando se preocupar?
Procure ajuda profissional quando:
- A criança come menos de 20 alimentos diferentes
- Há perda de peso ou estagnação no crescimento
- A criança apresenta sinais de deficiência nutricional
- As refeições se tornaram momento de estresse extremo para a família
- A seletividade impacta a vida social da criança
"A seletividade alimentar não é sobre comida — é sobre como o cérebro da criança processa o mundo. Quando entendemos isso, a compaixão substitui a frustração." — Jessica Costa Psi
Psicóloga infantojuvenil especializada em neurodivergências. CRP 05/56789