Formação · Análise do Comportamento Maio 2026

Por que me especializei em ABA — o que aprendi na PUC Goiás e o que aplico no consultório

Quando decidi fazer a pós em Análise do Comportamento Aplicada, algumas pessoas estranharam. "Mas você não é psicóloga clínica?" Sou. E foi exatamente por isso que escolhi a ABA: queria ferramentas para ajudar famílias além do que acontece dentro da sessão.

Jessica Costa, psicóloga infantojuvenil
Jessica Costa Psicóloga infantojuvenil · CRP 05/79764 · Pós em ABA (PUC Goiás) · Pós em Neuropsicologia (Einstein)

Existia uma lacuna no meu trabalho clínico que me incomodava: eu atendia bem dentro do consultório, mas as famílias saíam sem saber exatamente o que fazer nos momentos de crise em casa. A orientação parental que eu fazia era intuitiva, baseada em bom senso e na clínica. A pós em ABA transformou isso em método.

Esse artigo é um relato pessoal — o que o programa da PUC Goiás cobriu, o que absorvi de verdade e o que mudou na minha prática com crianças e famílias no Recreio dos Bandeirantes, em Goiânia e no atendimento online.

Análise do Comportamento vai muito além do que você provavelmente imagina

O nome "Análise do Comportamento Aplicada" evoca laboratório, experimentos, Skinner com pombos. Mas a ABA moderna — especialmente aplicada ao desenvolvimento infantil — é uma ciência sofisticada de leitura e mudança de comportamento.

O que ela faz, na prática, é perguntar: "Por que esse comportamento está acontecendo?" Não no sentido de psicologia profunda ("o que esse comportamento representa emocionalmente?"), mas num sentido funcional e verificável: o que acontece antes? O que acontece depois? O que essa criança está obtendo — ou evitando — com esse comportamento?

Essa lógica antecedente–comportamento–consequência (ABC) parece simples. Mas quando você a aplica com rigor, ela desfaz mistérios que famílias carregam há anos. A crise que "vem do nada" quase nunca vem do nada. A recusa escolar que parece "birra" quase nunca é birra.

"O comportamento comunica. Sempre. Minha tarefa é decifrar o que ele está dizendo."

Essa frase virou a âncora do meu trabalho depois da pós.

O que cobrimos na pós-graduação da PUC Goiás

O programa foi denso, rigoroso e, ao mesmo tempo, muito prático. Os pilares principais foram:

Fundamentos da Análise do Comportamento — não como histórico ou curiosidade, mas como base científica real: reforçamento, extinção, modelagem, encadeamento, generalização. Aprendi por que punição é quase sempre a estratégia mais ineficiente a longo prazo — mesmo quando parece funcionar no curto prazo.

Avaliação Funcional do Comportamento (AFC) — a metodologia para entender por que um comportamento acontece antes de tentar mudá-lo. Aprendi que intervir sem avaliar a função é chutar. Um comportamento que parece idêntico em duas crianças pode ter funções completamente diferentes e precisar de intervenções opostas.

Programas de ensino de habilidades — como estruturar metas funcionais para crianças que precisam desenvolver linguagem funcional, autonomia, habilidades sociais ou acadêmicas. Essa parte foi especialmente formativa para o meu trabalho com TEA.

Intervenção naturalista — a ABA contemporânea abandona boa parte do "treino em mesa" e trabalha dentro do ambiente natural da criança: no brincar, nas rotinas, nas refeições, no recreio. Muito mais respeitoso do que os modelos que aparecem em documentários antigos.

Treino de pais e cuidadores (Parent Training) — a parte que mais impactou minha prática. Uma criança está comigo uma ou duas vezes por semana. Está com os pais o resto do tempo. Se os pais não aprendem as estratégias, o progresso na sessão não se generaliza para casa.

Quer entender como ABA pode ajudar sua família? Atendimento Recreio dos Bandeirantes + Goiânia + Online · CRP 05/79764

As três coisas que mais mudaram minha prática

  • Passei a medir o que importa, não só o que é fácil de observar. Comecei a registrar dados sistematicamente: frequência de crises, tempo de engajamento em tarefas, número de tentativas para adquirir uma habilidade nova. Não é burocracia — é o que me permite saber se uma intervenção está funcionando ou se preciso mudar a abordagem antes que semanas sejam desperdiçadas.
  • O treino com os pais virou metade do meu trabalho. Dedico tempo real às orientações parentais — não como "conselho" genérico, mas como treinamento concreto: o que fazer quando X acontecer, como reforçar comportamento positivo sem criar dependência, como estruturar a rotina de forma que reduza os gatilhos de crise.
  • Nenhum comportamento é "sem sentido" ou "por maldade". Absorvi de verdade — a ponto de nunca mais dizer "sua criança faz isso para chamar atenção" como se fosse julgamento de caráter. Chamar atenção é uma função legítima. O problema não é a função, é o comportamento que a criança aprendeu para obtê-la. Meu trabalho é ensinar um comportamento mais funcional que sirva à mesma necessidade.

ABA não é o que você viu em documentários dos anos 90

Preciso falar sobre isso, porque a desinformação gera dano real. Famílias chegam assustadas porque viram imagens de crianças sendo submetidas a procedimentos aversivos, choque elétrico, restrição física. Isso pertence a uma fase histórica que a comunidade científica condenou e abandonou.

A ABA contemporânea, com base em reforçamento positivo e intervenção naturalista, é uma abordagem radicalmente diferente. Ela:

  • Respeita o ritmo e o interesse da criança
  • Trabalha dentro do brincar e das rotinas naturais, não em "mesas de treino"
  • Inclui os pais como parceiros, não como observadores passivos
  • Não tem como objetivo "fazer a criança parecer neurotípica" — tem como objetivo aumentar a autonomia e reduzir o sofrimento

Uma das discussões mais importantes que a pós-graduação abriu foi sobre neurodiversidade e ABA: como usar uma ciência comportamental a serviço do bem-estar da criança, e não para apagar diferenças que fazem parte de quem ela é.

Como ABA e TCC se integram no meu trabalho

Sou formada em TCC — Terapia Cognitivo-Comportamental. Depois da pós em ABA, passei a entender essas duas abordagens como complementares, não concorrentes.

A ABA me deu ferramentas para analisar e modificar comportamentos de forma sistemática, envolver os pais com método e estruturar metas funcionais observáveis. A TCC me dá o framework para trabalhar pensamentos, crenças e regulação emocional — conteúdo que está "dentro" da criança e que a ABA clássica trata de forma menos aprofundada.

Na prática, para uma criança com TDAH que tem explosões em sala de aula: uso ABA para mapear os antecedentes e ensinar comportamentos alternativos; uso TCC para trabalhar a frustração, a autoconsciência e as estratégias de autorregulação. Para uma criança com TEA que grita quando muda a rotina: ABA para estruturar a previsibilidade e ensinar comunicação funcional; TCC para trabalhar a flexibilidade cognitiva conforme a criança se desenvolve.

É a mesma criança. São ferramentas diferentes para camadas diferentes do mesmo problema.

Perguntas que recebo sobre ABA

ABA é indicada apenas para crianças com autismo?

Não. Ela é muito usada com TEA porque as evidências são robustas e a comunidade médica a recomenda, mas os princípios comportamentais se aplicam a qualquer criança que precisa desenvolver habilidades ou modificar comportamentos. Atendo crianças com TDAH, ansiedade, dificuldades comportamentais gerais — todas se beneficiam de uma abordagem funcional e baseada em análise do comportamento.

Os pais precisam participar do tratamento?

Sim, e muito. A literatura em ABA é clara: o treino de pais amplifica os resultados de forma significativa. Quando os pais entendem o que está acontecendo e conseguem aplicar as estratégias em casa, o progresso que acontece na sessão se generaliza para a vida real. Sem isso, o que aprendemos no consultório tende a ficar no consultório.

Quantas horas por semana são necessárias?

Depende da criança, da idade e dos objetivos. Intervenções precoces intensivas (20–40 horas/semana) têm forte evidência para TEA nível 2 e 3. Para crianças com demandas menores ou que frequentam escola regular, programas menos intensivos — 5 a 10 horas semanais entre sessão e orientação parental — costumam ser bem-sucedidos. A avaliação individualizada define isso.


A pós-graduação em Análise do Comportamento Aplicada foi uma das decisões mais acertadas da minha formação. Ela não me fez abandonar a psicologia clínica — me fez ser uma psicóloga clínica mais completa, que entende o comportamento da criança em profundidade e consegue transferir esse entendimento para os pais de forma prática.

Se você tem dúvidas sobre se ABA pode ajudar seu filho — seja com TEA, TDAH, comportamentos desafiadores ou dificuldades de desenvolvimento — me conta. A primeira conversa é para entender o que está acontecendo, sem compromisso.

Quer conversar sobre o que seu filho precisa?

Atendimento presencial em Recreio dos Bandeirantes e Goiânia, e online para todo o Brasil.