Quando o "bom comportamento" esconde necessidades emocionais não atendidas. Nem toda criança quieta está bem — algumas aprenderam que seus sentimentos não são bem-vindos.
A armadilha do "não dá trabalho"
Em uma sociedade que valoriza crianças obedientes e silenciosas, é comum ouvir elogios como "essa criança é um anjo, nunca dá trabalho" ou "ela é tão boazinha, nem parece criança". Mas será que isso é sempre positivo?
Muitas crianças aprendem desde cedo que para serem amadas e aceitas, precisam suprimir suas emoções, vontades e necessidades. Elas se tornam especialistas em agradar os outros — e se esquecem de si mesmas.
Como a criança "boazinha" se forma?
Geralmente, esse padrão se desenvolve quando:
- Os sentimentos da criança são minimizados: "Isso não é motivo pra chorar"
- O amor parece condicionado ao comportamento: "Mamãe só gosta de você quando você se comporta"
- A criança presencia conflitos e aprende que expressar emoções gera problemas
- Há comparações com irmãos ou colegas que "dão mais trabalho"
- O ambiente familiar não é emocionalmente seguro para expressão genuína
Sinais de alerta
Fique atento se seu filho:
- Nunca reclama, nunca pede nada, nunca expressa frustração
- Tenta constantemente agradar adultos e tem medo de desapontar
- Dificilmente diz "não" para alguém
- Assume responsabilidades emocionais dos adultos ao redor
- Tem dificuldade em identificar e nomear o que sente
- Apresenta sintomas físicos sem causa orgânica (dores de cabeça, dores de barriga)
- É excessivamente autocrítico e perfeccionista
Os impactos a longo prazo
Crianças que aprendem a suprimir suas emoções podem se tornar adultos com:
- Dificuldade em estabelecer limites saudáveis
- Tendência a relacionamentos onde dão mais do que recebem
- Ansiedade e depressão
- Sensação crônica de vazio ou de não saber quem são
- Burnout emocional por sempre colocar os outros em primeiro lugar
O que fazer?
- Valide todas as emoções: Raiva, tristeza e frustração são emoções saudáveis e necessárias. Diga: "Tudo bem sentir raiva. Vamos encontrar uma forma segura de expressar isso"
- Não elogie apenas obediência: Valorize também a coragem, a criatividade, a curiosidade e a capacidade de se posicionar
- Pergunte como ela se sente: Não espere que a criança traga. Pergunte ativamente: "Como foi seu dia de verdade?"
- Demonstre que o amor é incondicional: "Eu te amo sempre, quando você está feliz e quando está com raiva"
- Permita o "não": Ensine que dizer "não" é uma habilidade importante e saudável
"A criança mais silenciosa da sala pode ser a que mais precisa ser ouvida." — Jessica Costa Psi
Se você reconhece esses padrões no seu filho, saiba que nunca é tarde para mudar essa dinâmica. Um psicólogo infantil pode ajudar a criar um espaço seguro para que a criança aprenda a se expressar de verdade.
Psicóloga infantojuvenil especializada em neurodivergências. CRP 05/56789